terça-feira, 22 de março de 2016

Das queixas ao diagnóstico

Quando começaram as queixas? É uma coisa que nem sei bem…
Quando era mais nova, entre o secundário e a licenciatura, o meu problema eram as gastrites e gastroenterites. Todos os anos ia parar às urgências pelo menos 2x às custas destas meninas. Se elas tinham já alguma relação com o glúten é algo que não sei. Penso que a última vez que isso aconteceu foi em 2013.

Entretanto não voltaram a haver nem gastrites nem gastroenterites, mas infelizmente vieram outros sintomas. Dei por mim habituada aos vários sintomas que tinha, como se fossem normais. Todos os dias acordava enjoada e com dores gástricas e abdominais; sentia que a comida me caia quase sempre mal, deixando-me enjoada; tinha diarreias constantes; vómitos; cólicas a toda a hora; a barriga inchada, … Estes sintomas inevitavelmente deixaram-me com grandes oscilações de humor. Dei por mim com uma constante irritabilidade, tanto para comigo como para os outros. A ansiedade era outra coisa que estava sempre presente, principalmente se pensava que tinha de fazer uma viagem ou sair até algum lado – pensava constantemente quando é que ia acabar por me sentir mal. Os sintomas foram piorando e levaram-me a sentir inúmeros sinais de depressão.

Acho que foi nessa altura que pensei que não podia continuar assim. Não podia continuar a considerar estes sintomas como normais e tinha de haver alguma coisa a fazer para poder ter uma vida normal. Decidi finalmente marcar uma consulta com um gastroenterologista, no final de fevereiro de 2015.

Expliquei-lhe os meus sintomas, como um deles eram as insónias e dificuldade em manter o sono ele receitou-me vários compridos para dormir – vários porque fomos fazendo experiências e nenhuns deles funcionava. Ao mesmo tempo ele pediu-me para fazer um diário alimentar, onde tinha de apontar o que comia e a que horas e os sintomas que tinha. Segui o diário à risca, durante meses andava com ele sempre atrás, enquanto tentava fazer uma relação entre um alimento e as minhas dores constantes. Acabou por se considerar a doença celíaca (DC) ou a intolerância ao glúten e assim o médico mandou-me fazer análises ao sangue para avaliar os anticorpos anti-gliadina, anti-endomísio e anti-t transglutaminase. Os resultados acabaram por dar negativo para os anticorpos anti-gliadina mas positivo para os outros dois.

Quando se considerou então a DC claro que fui quase imediatamente à internet pesquisar acerca disso. De repente muitas outras queixas faziam sentido, porque com a doença celíaca não estavam só relacionadas as queixas gastrointestinais. “Fadiga, irritabilidade, oscilações de humor, dificuldade em concentrar, inchaço e dores nas articulações, dores nos ossos, unhas fracas, queda de cabelo, …” Na verdade andava a queixar-me de muitas delas. Inclusive, cheguei a ir a um ortopedista por causa de dores nas costas insuportáveis, as dores nas articulações dos dedos já eram algo que me atormentava há bastante tempo e além disso tenho síndrome de Raynaud, que aparentemente pode estar associado à DC.

Além das análises, foi-me recomendado fazer uma dieta sem glúten e continuar o diário alimentar. Durante algum tempo, não muito, foi o que fiz, e senti-me ligeiramente melhor. Como já tinha feito alguma pesquisa sabia que para ter a confirmação de DC era necessário fazer uma biópsia ao intestino delgado e falei ao médico sobre isso. Ele disse que sim mas não foi muito convincente e disse que podia marcar logo, ao que eu achei estranho porque também tinha lido que era necessário a pessoa estar sob uma dieta com glúten para a biópsia poder dar um resultado fiável, pois só estando a consumir glúten podia haver lesão das vilosidades intestinais. Ele lá aceitou o meu argumento e disse para voltar à alimentação normal com glúten por 2 semanas e depois ir fazer a endoscopia (que fiz em maio 2015).

Fiz o que ele mandou, a biopsia não deu nada de errado. Já faziam quase 6 meses que ia às consultas e só estava a resultar numa maior frustração. Acabei por ouvir falar muito bem de outro gastroenterologista, pelo que decidi mudar de médico, isto já a meio de agosto, 2015.

A primeira coisa que achei foi que o médico tinha uma cara assustadora, mas ao sair da consulta não podia ter ficado a gostar mais dele. Depois dessa consulta comecei a sentir realmente esperança. Este médico era precisamente o tipo de médico que qualquer pessoa gosta – não tem pressa em despachar a consulta, faz perguntas acerca de tudo, explica todas as possibilidades e o que elas representam e pergunta várias vezes se temos alguma dúvida. Na altura levei a biópsia que tinha feito com o outro médico (erro meu, esqueci-me de levar logo as análises que tinha feito antes). Ele ao ver a biópsia ao intestino delgado, sem danos relevantes não pensou em DC e disse-me que uma possibilidade era a síndrome do intestino irritável. Os sintomas batiam certo também com esse diagnóstico, pelo que podia efetivamente ser isso. Disse-me para por uns tempos tentar evitar alguns dos alimentos que irritam mais o intestino (verduras, fruta crua, molhos, álcool, café, chá preto, …) e disse ainda que haviam várias medicações para esse caso e que íamos começar com uma e ver no que é que dava. Acabei por experimentar 3 medicamentos diferentes. Houve um que me deixou melhor, mas não era o suficiente… Quando tinha dores tomava-o e melhorava mas continuava a ter os outros sintomas todos. O médico continuou prestável, dizia-me sempre que havia sempre outro caminho a seguir e íamos explorar todas as opções até acertarmos com o diagnóstico.

Acabei mais tarde, já não me lembro porquê, por levar as tais análises. Ele ficou um pouco incrédulo e disse que aquelas análises não faziam sentido. Segundo ele as análises ao sangue apontavam para DC e a biópsia dizia o contrário. Acabei por explicar como tinha sido feita a biópsia – após um período sem glúten houve outro período, embora curto, com glúten. Ele ficou bastante intrigado e disse que, embora não gostasse de partir para os métodos invasivos, gostava de me fazer uma nova endoscopia e que aproveitávamos a sedação para fazer uma colonoscopia para ficarmos já a saber o que se passava com tudo. Pediu-me que antes de fazer a endoscopia comesse o máximo de glúten possível, numa tentativa por assim dizer, de "estragar" ao máximo as vilosidades intestinais, durante cerca de um mês.

Nem vale a pena falar sobre como a preparação para fazer a colonoscopia foi horrível. Quando estava já deitada pronta para me darem a anestesia só pensei “estou tão morta de fome que era capaz de adormecer e não sentir nada sem anestesia…”. Foi a primeira vez que vi o médico sorrir.

Quanto aos resultados, diziam haver na mucosa do duodeno áreas com ligeira diminuição das dimensões vilositárias – “a correlacionar com os dados clínicos”. E ainda alterações inflamatórias crónicas inespecíficas no íleon e cólon. Correlacionando então com os dados clínicos tudo indicava a DC. Assim sendo o meu médico, apesar de não me confirmar a DC, pois poderá eventualmente ser uma intolerância ao glúten não celíaca, disse que tinha então de fazer uma dieta isenta de glúten, tendo o cuidado de ser muito rigorosa.

Agora, são 3 meses de DIG (dieta isenta de glúten), depois novas análises e nova consulta para ver em que ponto da situação ficamos.


10.Dezembro.2015

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