Quando começaram as queixas? É uma coisa que nem sei bem…
Quando era mais nova, entre o secundário e a licenciatura, o
meu problema eram as gastrites e gastroenterites. Todos os anos ia parar às
urgências pelo menos 2x às custas destas meninas. Se elas tinham já alguma
relação com o glúten é algo que não sei. Penso que a última vez que isso
aconteceu foi em 2013.
Entretanto não voltaram a haver nem gastrites nem
gastroenterites, mas infelizmente vieram outros sintomas. Dei por mim habituada
aos vários sintomas que tinha, como se fossem normais. Todos os dias acordava
enjoada e com dores gástricas e abdominais; sentia que a comida me caia quase
sempre mal, deixando-me enjoada; tinha diarreias constantes; vómitos; cólicas a
toda a hora; a barriga inchada, … Estes sintomas inevitavelmente deixaram-me
com grandes oscilações de humor. Dei por mim com uma constante irritabilidade,
tanto para comigo como para os outros. A ansiedade era outra coisa que estava
sempre presente, principalmente se pensava que tinha de fazer uma viagem ou
sair até algum lado – pensava constantemente quando é que ia acabar por me
sentir mal. Os sintomas foram piorando e levaram-me a sentir inúmeros sinais de
depressão.
Acho que foi nessa altura que pensei que não podia continuar
assim. Não podia continuar a considerar estes sintomas como normais e tinha de
haver alguma coisa a fazer para poder ter uma vida normal. Decidi finalmente
marcar uma consulta com um gastroenterologista, no final de fevereiro de 2015.
Expliquei-lhe os meus sintomas, como um deles eram as
insónias e dificuldade em manter o sono ele receitou-me vários compridos para
dormir – vários porque fomos fazendo experiências e nenhuns deles funcionava.
Ao mesmo tempo ele pediu-me para fazer um diário alimentar, onde tinha de
apontar o que comia e a que horas e os sintomas que tinha. Segui o diário à
risca, durante meses andava com ele sempre atrás, enquanto tentava fazer uma
relação entre um alimento e as minhas dores constantes. Acabou por se
considerar a doença celíaca (DC) ou a intolerância ao glúten e assim o médico
mandou-me fazer análises ao sangue para avaliar os anticorpos anti-gliadina,
anti-endomísio e anti-t transglutaminase. Os resultados acabaram por dar
negativo para os anticorpos anti-gliadina mas positivo para os outros dois.
Quando se considerou então a DC claro que fui quase
imediatamente à internet pesquisar acerca disso. De repente muitas outras
queixas faziam sentido, porque com a doença celíaca não estavam só relacionadas
as queixas gastrointestinais. “Fadiga, irritabilidade, oscilações de humor,
dificuldade em concentrar, inchaço e dores nas articulações, dores nos ossos,
unhas fracas, queda de cabelo, …” Na verdade andava a queixar-me de muitas
delas. Inclusive, cheguei a ir a um ortopedista por causa de dores nas costas
insuportáveis, as dores nas articulações dos dedos já eram algo que me
atormentava há bastante tempo e além disso tenho síndrome de Raynaud, que
aparentemente pode estar associado à DC.
Além das análises, foi-me recomendado fazer uma dieta sem
glúten e continuar o diário alimentar. Durante algum tempo, não muito, foi o
que fiz, e senti-me ligeiramente melhor. Como já tinha feito alguma pesquisa
sabia que para ter a confirmação de DC era necessário fazer uma biópsia ao
intestino delgado e falei ao médico sobre isso. Ele disse que sim mas não foi
muito convincente e disse que podia marcar logo, ao que eu achei estranho
porque também tinha lido que era necessário a pessoa estar sob uma dieta com
glúten para a biópsia poder dar um resultado fiável, pois só estando a consumir
glúten podia haver lesão das vilosidades intestinais. Ele lá aceitou o meu
argumento e disse para voltar à alimentação normal com glúten por 2 semanas e
depois ir fazer a endoscopia (que fiz em maio 2015).
Fiz o que ele mandou, a biopsia não deu nada de errado. Já
faziam quase 6 meses que
ia às consultas e só estava a resultar numa maior frustração. Acabei por ouvir
falar muito bem de outro gastroenterologista, pelo que decidi mudar de médico,
isto já a meio de agosto, 2015.
A primeira coisa que achei foi que o médico tinha uma cara
assustadora, mas ao sair da consulta não podia ter ficado a gostar mais dele.
Depois dessa consulta comecei a sentir realmente esperança. Este médico era
precisamente o tipo de médico que qualquer pessoa gosta – não tem pressa em
despachar a consulta, faz perguntas acerca de tudo, explica todas as
possibilidades e o que elas representam e pergunta várias vezes se temos alguma
dúvida. Na altura levei a biópsia que tinha feito com o outro médico (erro meu,
esqueci-me de levar logo as análises que tinha feito antes). Ele ao ver a
biópsia ao intestino delgado, sem danos relevantes não pensou em DC e disse-me
que uma possibilidade era a síndrome do intestino irritável. Os sintomas batiam
certo também com esse diagnóstico, pelo que podia efetivamente ser isso. Disse-me
para por uns tempos tentar evitar alguns dos alimentos que irritam mais o
intestino (verduras, fruta crua, molhos, álcool, café, chá preto, …) e disse
ainda que haviam várias medicações para esse caso e que íamos começar com uma e
ver no que é que dava. Acabei por experimentar 3 medicamentos diferentes. Houve
um que me deixou melhor, mas não era o suficiente… Quando tinha dores tomava-o
e melhorava mas continuava a ter os outros sintomas todos. O médico continuou
prestável, dizia-me sempre que havia sempre outro caminho a seguir e íamos
explorar todas as opções até acertarmos com o diagnóstico.
Acabei mais tarde, já não me lembro porquê, por levar as
tais análises. Ele ficou um pouco incrédulo e disse que aquelas análises não
faziam sentido. Segundo ele as análises ao sangue apontavam para DC e a biópsia
dizia o contrário. Acabei por explicar como tinha sido feita a biópsia – após
um período sem glúten houve outro período, embora curto, com glúten. Ele ficou
bastante intrigado e disse que, embora não gostasse de partir para os métodos
invasivos, gostava de me fazer uma nova endoscopia e que aproveitávamos a
sedação para fazer uma colonoscopia para ficarmos já a saber o que se passava
com tudo. Pediu-me que antes de fazer a endoscopia comesse o máximo de glúten
possível, numa tentativa por assim dizer, de "estragar" ao máximo as vilosidades
intestinais, durante cerca de um mês.
Nem vale a pena falar sobre como a preparação para fazer a
colonoscopia foi horrível. Quando estava já deitada pronta para me darem a
anestesia só pensei “estou tão morta de fome que era capaz de adormecer e não
sentir nada sem anestesia…”. Foi a primeira vez que vi o médico sorrir.
Quanto aos resultados, diziam haver na mucosa do duodeno
áreas com ligeira diminuição das dimensões vilositárias – “a correlacionar com
os dados clínicos”. E ainda alterações inflamatórias crónicas inespecíficas no
íleon e cólon. Correlacionando então com os dados clínicos tudo indicava a DC.
Assim sendo o meu médico, apesar de não me confirmar a DC, pois poderá
eventualmente ser uma intolerância ao glúten não celíaca, disse que tinha então
de fazer uma dieta isenta de glúten, tendo o cuidado de ser muito rigorosa.
Agora, são 3 meses de DIG (dieta isenta de glúten), depois
novas análises e nova consulta para ver em que ponto da situação ficamos.
10.Dezembro.2015
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